Era sua vida, afinal… jamais deixara que alguém a controlasse. Sua mãe saíra chorando do apartamento que dividia com a amiga… Não era agradável vê-la daquele jeito, mas não pudera se conter, fora quase desumana com aquela que não soube dar crédito a própria filha. Nunca a perdoaria por ter se omitido enquanto o padrasto visitava seu quarto toda a noite.
…clichê… ou natureza humana… ela não saberia dizer.
“Cê ainda é virgem, menina, se preocupa não… Não é amor o que fazemos, tô só te currando mesmo” – era o que ouvia quando a mãe voltava tarde do trabalho. Nem seria preciso que sua mãe dissesse. Descobrira sozinha que não havia monstros, só homens e maldade…
Preferia, contudo, deixar de lado o passado… Até que estava bem de vida. Ela e a amiga dividiam um bom apartamento de frente para o mar, e clientes não faltavam. Fora difícil chegar ao topo, mas nesse negócio tudo que era preciso era ser bonita, ser submissa e gostar – ao menos um pouco – do que fazia…
Estava a caminho do motel em seu próprio carro, comprado havia menos de um mês, pensando que, se não fossem os tarados, até que seria fácil. Acabara de receber o telefonema de um cliente novo. Nesses tempos não era tão bom variar… Costumava guardar os nomes e preferências dos clientes em computador e tudo mais, dando prioridade aos que há muito conhecia. A voz desse último, porém, lhe passara certa segurança.
Era um belo lugar… de verdade. Não tinha estado lá antes, mesmo porque até os mais sofisticados clientes acreditavam não dever a ela grandes regalias. Sem dúvida um motel e tanto… lugar para dois carros na garagem do quarto… Imaginava que o preço do período de doze horas – agendado pelo cliente – bem poderia ser maior que seu próprio cachê.
Subira as escadas um pouco intrigada com a ostentação. Felizmente viera com um belo vestidinho preto em plush – que não chegava a ser chique, mas que fazia as vezes de.
Sorrira de si para si ao pensar que a recepção do motel devia checar se as clientes estavam de saltos altos e meias de seda para liberar a entrada…
O quarto era belíssimo, o tapete quase tão macio quanto a cama. Não ligou luzes adicionais, contentando-se com a luz indireta deixada acesa pelo cliente que ainda não aparecera. Sabia que alguns deles se sentiam mais seguros daquele modo.
Quando o felino se enroscou em suas pernas quase deu um pulo de onde estava. Arrepiara-se toda logo que se recuperou. Levou as mãos ao belo animal de pelagem rajada em cinza e preto e acariciou-o, levando-o ao colo. Ele pouco lhe deu atenção, contudo, logo saltando de cima dela para correr pelo tapete até a ante-sala que dava para o corredor do motel.
Era uma visão, aquele homem… que saíra da ante-sala logo que o felino entrou. Alto, largo, as pernas fortes sob o belo corte do robe caro. Não a beijou… trazia champanhe para ambos numa das mãos e deixou o balde de gelo com a garrafa sobre o criado-mudo. Ela já estava de pé, lúbricos devaneios lhe diziam que seria um daqueles clientes inesquecíveis que, provavelmente, e que jamais a chamaria outra vez.
Sorveu o líquido – champanhe que nunca provara antes: perfeito, suave… Ouviram música, dançando e bebendo, dois corpos perfeitos colidindo devagar e gentilmente. Ela soube -”um dia” – que lá ficaria por doze horas, mas não se incomodava se ele a forçasse a ficar lá para sempre. Embriagada mais pela presença que pela bebida, mais por seu toque que pela música, a certa altura arriscou as mãos por entre o robe e o corpo poderoso e imponente… suas línguas se tocaram…
Combinava violência, força e ternura, aquele homem, enquanto a penetrava, de pé. Ela as mãos no espelho, debruçada sobre o sofá, os joelhos nas almofadas, os saltos pendentes, as meias presas pela liga. Tomava-o para si por trás – como mais ela apreciava – o vestido abatido havia muito, testemunha da força daquilo tudo. Molhada demais… as mãos dele hora em seu quadril, hora deslizando por suas costas. Ela levava as suas por baixo do próprio corpo, tocando a si e ao parceiro, segurando o membro, incrédula… a grossura, a força, a demora. Suas mãos voltavam ao espelho, arrebitava-se, gemendo de prazer. Sentia o gozo, finalmente, visitando-lhes no mesmo compasso e ritmo. Precisava tê-lo em si, mas tirou-o e virou de frente, ávida.
Tocava-lhe agora o flanco e as coxas musculosas, de joelhos, o rosto para o membro, os olhos fechados de prazer e a boca entre-aberta, seus lábios procurando-o… Levou as mãos ao falo, finalmente, uma por baixo, outra ao talo grosso. Enfiou-o na boca sem cerimônia, o volume desconhecido e penoso… Sentia-o gozar ainda mais – inequívoca viscosidade – o sêmen escorrendo pelos lados de seu rosto. Delírio – prazer na felação não era algo tão comum – era especial aquele homem, aquele momento. Abriu parcialmente os olhos procurando os dele, notando findo o orgasmo. Algo rubro porém lhe cobria o colo, olhou para si… em tudo estava a cor…
Era sangue, “mas de quem”… E a ignorância subitamente desapareceu quando o amante a suspendeu pelos cabelos, sem dor, só prazer e força… Tantas histórias, tantas fábulas… não sabia mais porque diziam às crianças que monstros não existiam… Ele afundava então as presas em seu colo sorvendo-lhe o fluido vital encarnado, as mãos em sua nuca e nos cabelos, os olhos flamejantes, e ela não sabia o que sentia… prazer, dor lancinante… em pouco isso não importaria mais, o corpo, belo… de rijo à entregue… balouçante… e só ele restava… menos uma amante…
Poucos parágrafos e um conto sem lacunas. Forte com certeza.
Confesso que só li este seu conto por enquanto, porque o outro de 10 páginas me deu preguiça haha… Seu estilo é cru e objetivo, sem muitas metáforas que deixam o texto metafísico demais. Isso é muito legal. Pouca gente consegue ir “direto ao assunto”. O começo me lembrou o filme de Twin Peaks, quanto à história de Laura Palmer (acho que é esse o nome dela, não?)… Repetindo o que o Cândido disse aí em cima: um texto sem lacunas, certamente forte no sentido de marcante e apreciável. (: