Vidas

Publicação: 9 de janeiro de 2010

escrito em:
18 de Setembro de 2004

Ele vinha subindo as escadas às pressas, eu quase podia senti-lo, enquanto “meu” marido ainda dormia em “nossa” cama. Jamais conseguira ficar calma e creio que nunca seria fácil quebrar a ampola, encher a seringa e injetar… – Querido? – eu o acordava de longe em um tom falsamente preocupado e verdadeiramente assustado – Acho que há alguém no andar de baixo! – afirmava pouco depois de tentar encostar a porta do banheiro com um dos pés.

Empurrara o êmbolo, afinal, e a droga faria efeito em seguida, mas sempre dispunha de tão pouco tempo!

A porta fora arrombada enquanto um marido cambaleante de sono se levantava para me defender; a mim… aquela que deveria ser sua esposa.

Pela fresta da porta entreaberta via vagamente o sujeito que entrara, surpreso pelo homem sonolento que tentava impedi-lo e que, segundos depois, levava um tiro, caindo de lado. Mais uma vez – pensava eu enquanto desfalecia – ficava viúva…

13 de Agosto de 1998

* * *

A cabeça não tanto doía quanto me pregava peças, a cada vez que despertava. Não há tanta diferença mais entre o meu passado e meu futuro. Não fosse o presente eu bem podia ser apenas um conto… tinta sobre o papel… ou a alegoria e essência musical destes versos inúteis.

Não era aquela mais minha vida. Embaixo de minha cabeça, naquele momento, resmas e mais resmas de papel e uma enormidade de palavras umas ao lado das outras, umas sobre as outras, quais tijolos em uma construção. Não, não era a outra mais minha vida, entretanto vivia do passado um desespero que cessou ao dormir num dia e acordar em outro.

Poesia infernal que me vinha à cabeça nessa vida, enquanto tentava dela se desvencilhar – e das peças que a mente turva me pregava – ao acordar nesta gente nova que via refletida na placidez da xícara de chá.

– Minha nossa! Que pessoa é essa? – era o que me perguntava ao ver a face do homem de testa alta, nariz comprido, óculos e bigode estreito.

Não me incomodava tanto acordar homem como acordar velho, feio e latino! Pior era ser-se mais do que se é e ter de passar ao largo das coisas sem a singela noção do que são elas e criando poesia o tempo todo na tela da mente que as percebe – Pára!

No princípio era sempre assim, sabia eu, e os pensamentos se inclinavam para os da pessoa no cerne da qual eu acordava. Ao longo do dia a sensação de ser estrangeira passava. Até a aparência e percepções peculiares se davam por vencidas, como ocorre àqueles que acordam de uma noite mal dormida a contra gosto.

Olhava-me no espelho, como sempre, procurando uma semelhança qualquer comigo mesma, um brilho no olhar, um frêmito de existência que, perene, lá estivesse me dizendo que eu era eu… mas jamais encontrava.

Casara nova, obrigada – muito antes disso tudo – e fizera ao meu marido os cornos que podia sem ninguém sabê-lo. Tanto corneava o pobre que me vinha doída ao leito. Não deixo tanto de servi-lo pelo asco contido quanto pela exaustão do adultério e pelo peso que me faziam os cornos que lhe cultivava à testa.


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